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quinta-feira, 31 de março de 2016

10 coisas que o Brasil inteiro precisa saber.

Por Igor Fuser *
Lula Marques

O pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não tem NADA A VER com a Operação Lava Jato, nem com qualquer outra iniciativa de corrupção.

É preciso avisar todos os brasileiros, informar de um modo tão claro e objetivo que até as carrancas do Rio São Francisco tenham conhecimento de que:

1.O pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não tem NADA A VER com a Operação Lava Jato, nem com qualquer outra iniciativa de combate à corrupção. Dilma não é acusada de roubar um único centavo. O pretexto usado pelos políticos da oposição para tentar afastá-la do governo, a chamada “pedalada fiscal”, é um procedimento de gestão do orçamento público de rotina em todos os níveis de governo, federal, estadual e municipal, e foi adotado nos mandatos de Fernando Henrique e de Lula sem qualquer problema. Ela, simplesmente, colocou dinheiro da Caixa Econômica Federal em programas sociais, para conseguir fechar as contas e, no ano seguinte, devolveu esse dinheiro à Caixa. Não obteve nenhum benefício pessoal e nem os seus piores inimigos conseguem acusá-la de qualquer ato de corrupção.

2.O impeachment é um golpe justamente por isso, porque a presidente só pode ser afastada se estiver comprovado que ela cometeu um crime - e esse crime não aconteceu, tanto que, até agora, o nome de Dilma tem ficado de fora de todas as investigações de corrupção, pois não existe, contra ela, nem mesma a mínima suspeita.

3.Ao contrário da presidenta Dilma, os políticos que pedem o afastamento estão mais sujos que pau de galinheiro. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que como presidente da Câmara é o responsável pelo processo do impeachment, recebeu mais de R$ 52 milhões só da corrupção na Petrobrás e é dono de depósitos milionários em contas secretas na Suíça e em outros paraísos fiscais. Na comissão de deputados que analisará o pedido de impeachment, com 65 integrantes, 37 (mais da metade!) estão na mira da Justiça, investigados por corrupção. Se eles conseguirem depor a presidenta, esperam receber, em troca, a impunidade pelas falcatruas cometidas.

4.Quem lidera a campanha pelo impeachment é o PSDB, partido oposicionista DERROTADO nas eleições presidenciais de 2014. Seu candidato, Aecio Neves, alcançar no tapetão o mesmo resultado político que não foi capaz de obter nas urnas, desrespeitando o voto de 54.499.901 brasileiros e brasileiras que votaram em Dilma (3,4% mais do que os eleitores de Aecio no segundo turno).

5.Se o golpe se consumar, a oposição colocará em prática todas as propostas elitistas e autoritárias que Aecio planejava implementar se tivesse ganho a eleição. O presidente golpista irá, com toda certeza, mudar as leis trabalhistas, em prejuízo dos assalariados; revogar a política de valorização do salário mínimo; implantar a terceirização irrestrita da mão-de-obra; entregar as reservas de petróleo do pré-sal às empresas transnacionais (como defende o senador José Serra); privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal; introduzir o ensino pago nas universidades federais, como primeiro passo para a sua privatização; reprimir os movimentos sociais e a liberdade de expressão na internet; expulsar os cubanos que trabalham no Programa Mais Médicos; dar sinal verde ao agronegócio para se apropriar das terras indígenas; eliminar a política externa independente, rebaixando o Brasil ao papel de serviçal dos Estados Unidos. É isso, muito mais do que o mandato da presidenta Dilma ou o futuro político de Lula, o que está em jogo na batalha do impeachment.

6.É um engano supor que a economia irá melhorar depois de uma eventual mudança na presidência da república. Todos os fatores que conduziram o país à atual crise continuarão presentes, com vários agravantes. A instabilidade política será a regra. Os líderes da atual campanha golpista passarão a se digladiar pelo poder, como piranhas ao redor de um pedaço de carne. E Dilma será substituída por um sujeito fraco, Michel Temer, mais interessado em garantir seu futuro (certamente uma cadeira no Supremo Tribunal Federal) e em se proteger das denúncias de corrupção do que em governar efetivamente. A inflação continuará aumentando, e o desemprego também.

7.No plano político, o Brasil mergulhará num período caótico, de forte instabilidade. A derrubada de uma presidenta eleita, sacramentada pelo voto, levará o país em que, pela primeira vez desde o fim do regime militar, estará à frente do Executivo um mandatário ilegítimo, contestado por uma enorme parcela da sociedade.

8.O conflito dará a tônica da vida social. As tendências fascistas, assanhadas com o golpe, vão se sentir liberadas para pôr em prática seus impulsos violentos, expressos, simbolicamente, nas imagens de bonecos enforcados exibindo o boné do MST ou a estrela do PT e, de uma forma mais concreta, nas invasões e atentados contra sindicatos e partidos políticos, nos ataques selvagens a pessoas cujo único crime é o de vestir uma camisa vermelha. O líder dessa corrente de extrema-direita, o deputado Jair Bolsonaro, já defendeu abertamente, num dos comícios pró-impeachment, que cada fazendeiro carregue consigo um fuzil para matar militantes do MST.

9.Os sindicatos e os movimentos sociais não ficarão de braços cruzados diante da truculência da direita e da ofensiva governista e patronal contra os direitos sociais durante conquistados nas últimas duas décadas. Vão resistir por todos os meios – greves, ocupações de terras, bloqueio de estradas, tomada de imóveis, e muito mais. O Brasil se tornará um país conflagrado, por culpa da irresponsabilidade e da ambição desmedida de meia dúzia de políticos incapazes de chegar ao poder pelo voto popular. Isso é o que nos espera se o golpe contra a presidenta Dilma vingar.

10.Mas isso não acontecerá. A mobilização da cidadania em defesa da legalidade e da democracia está crescendo, com a adesão de mais e mais pessoas e movimentos, independentemente de filiação partidária, de crença religiosa e de apoiar ou não as políticas oficiais. A opinião de cada um de nós a respeito do PT ou do governo Dilma já não é o que importa. Está em jogo a democracia, o respeito ao resultado das urnas e à norma constitucional que proíbe a aplicação de impeachment sem a existência de um crime que justifique essa medida extrema. Mais e mais brasileiros estão percebendo isso e saindo às ruas contra os golpistas. Neste dia 31 de março, a resistência democrática travará mais uma batalha decisiva.

É essencial a participação de todos, em cada canto do Brasil, Todos precisamos sair às ruas, em defesa da legalidade, da Constituição e dos direitos sociais. Todos juntos! O fascismo não passará! Não vai ter golpe!

(*) O texto incorpora trechos de artigos de Jeferson Miola e de Fabio Garrido. Igor Fuser é professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Fonte da imagem: http://www.wsantacruz.com.br/wp-content/uploads/2015/02/brazil-dilma-rousseff.jpg

Fonte do Artigo: Revista Carta Maior
http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FPolitica%2F10-coisas-que-o-Brasil-inteiro-precisa-saber%0A%2F4%2F35808

quinta-feira, 17 de março de 2016

A VINGANÇA DA VIZINHA

"Natura deficit,
Fortuna Mutatus
Deo Omini Cernit"

A Natureza falha
A sorte Muda
Deus Observa e Discerne

"Ubi omnia scire putamus ...
Scimus quia nihil est quod ...
Tantum possum melius ...
Et conculcet in via ..."

Sempre achamos que sabemos tudo...
O Fato é que não sabemos nada...
Só me resta ponderar pelo melhor...
E trilhar o caminho reto...

Vamos começar pelo começo,

Como Assistente Social, por vezes nos chegam casos de que envolvem a "suspeita" de abuso sexual contra criança/adolescente. Moralmente falando, são casos execrados pela sociedade e pela opinião pública. Devida a intensidade das emoções ali envolvidas, e as consequências para todas as partes, até que a "suspeita" se torne fato, procuramos proceder com descrição e cuidado na disponibilização de informações, e segue-se as investigações em sigilo de justiça, ate que seja julgado e promulgada uma pena... ou não! Até que verifica-se a inocência do suspeito...ou não!

Temos visto o linchamento público de fato de "pessoas" que alguém falou que fez; que alguém disse ter visto; isso tem sido lançado livremente sem escrúpulos nas redes sociais, e vez ou outra vemos mães, pais, trabalhadores, adolescentes sendo "literalmente" espancados publicamente, em nome de uma justiça feita com as próprias mãos, para logo em seguida, então, ser noticiado que foi engano, que aquela pessoa não era que diziam que era...

Me lembro de um caso no ano passado em Santos/SP onde uma mulher foi espancada pelo turba enlouquecida de seu bairro, acusada via FaceBook de fazer rituais satânicos com crianças... Bom, mulher foi, morta, ninguém foi preso, e descobriu-se que se tratava apenas de uma vingança de uma vizinha, que postou essa informação na internet...
E a "turba" executou o desejo da vizinha...

Então... Como disse lá no início "sempre achamos que sabemos tudo, mais o fato é que não sabemos nada...", para se garantir a justiça, condenação ou absorvição, de maneira irrefutável e com isenção, é esperado que as instituições e profissionais envolvidos em um processo de investigação mantenham o sigilo profissional e o sigilo de justiça. Garantia de que "todos" são inocentes até que se julgue em contrário.

No final das contas e longe dos "méritos", "culpas" e "responsabilidades"; vivemos hoje aquele segundo fatídico "antes da queda", irmãos contra irmãos, amigos tornando-se inimigos, em função do "vazamento" seletivo e "ilegal" de informações que deveriam seguir em sigilo de justiça.

Em quanto país, já vimos este filme, em quanto "cidadãos", emitimos opiniões sobre "fatos" escolhidos a dedos por quem não se importa nem um pouco com o tamanho da queda, ou resultado do choque contra o fundo do abismo...

Sugiro ponderação, em um momento difícil, e convido a observarem com clareza para um fato obvio, Verifiquem quem é que esta nas ruas se atacando fisicamente uns com os outros? Quem em meio ao caos instalado ganha com tudo isso?

quinta-feira, 10 de março de 2016

Microcefalia

Pessoal, quem conhecer ou souber de alguém que tenha na família bebês que nasceram com microcefalia, orientem a fazer o cadastro no portal do Sarah para iniciarem o processo de  reabilitação. http://www.sarah.br/consultas/microcefalia

Vamos divulgar até chegar em quem precisa

sábado, 23 de janeiro de 2016

As Ocupa-Ações Secundarista em SP: da autodefesa do espaço à escola autogerida

Por Sandro Barbosa de Oliveira

Mas de onde veio essa força política? Ao que parece, ocupar uma escola foi ocupar o coração do espaço público na sociedade, o que permitiu aos estudantes se apropriarem de um espaço que não estava efetivamente em suas mãos e que lhes atribuiu legitimidade e reconhecimento por parte de diversos países.

Era madrugada do dia 10 de novembro quando a notícia de um acontecimento inusitado repercutiu entre os estudantes secundaristas: a Escola Estadual Diadema havia sido ocupada por seus próprios estudantes em uma ação direta de luta e denúncia do fechamento de alguns ciclos do ensino pela Secretaria de Educação do Governo do Estado de São Paulo. Na sequência, articulada com a primeira ocupação, estudantes ocuparam a Escola Estadual Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros em São Paulo, demonstrando uma articulação inédita entre estudantes de escolas diferentes e em cidades diferentes – Diadema e São Paulo. Estava aberta a temporada de ocupações das escolas públicas estaduais do estado mais rico e economicamente desenvolvido do país.

Não demorou muito para ocorrer no dia 11 a terceira ocupação na Escola Salvador Allende, localizada no Conjunto José Bonifácio, na zona leste, periferia de São Paulo. Mas o que essas ocupações reivindicavam? Como já é de conhecimento público, iniciaram uma luta contra a proposta do governo tucano de reorganização escolar e fechamento de 94 escolas no estado. Não por acaso, as ocupações das escolas Diadema e Fernão Dias estavam sendo planejadas há mais de 6 meses em decorrência da ausência de diálogo por parte do governo com os estudantes e seus responsáveis. Na ausência de diálogo e diante de uma condição que os afetaria diretamente por essa medida, os estudantes adotaram uma ação radical: ocuparam e resistiram em suas escolas para forçar o governo a retroceder no pleito e reconsiderar a proposta, uma luta que foi ganhando força política e algo assim não havia sido visto ainda no Brasil.

Mas de onde veio essa força política? Ao que parece, ocupar uma escola foi ocupar o coração do espaço público na sociedade, o que permitiu aos estudantes se apropriarem de um espaço que não estava efetivamente em suas mãos e que lhes atribuiu legitimidade e reconhecimento por parte de diversos setores sociais. O movimento de ocupação das escolas cresceu e se generalizou em grandes centros urbanos do estado, o que demonstrou que além de um movimento secundarista foi também um movimento urbano em defesa de um espaço público importante na sociedade: a escola pública.

Para quem é do movimento de moradia ou mesmo dos sem-terra e ocupa terras ou imóveis vazios sabe que toda ocupação é um processo de luta e formação de militantes, pois a luta educa e ensina aprendizados políticos que não estão nos livros. Todavia, a experiência dos mais velhos fortalece a inexperiência dos mais jovens, o que permite ao movimento obter conquistas ou aprender com as derrotas. No caso dos estudantes secundaristas, qual foi a experiência anterior de ocupação de escola? Pois é, como não houve experiências passadas de ocupações, os estudantes tiveram que aprender fazendo. O fazer então se tornou a melhor maneira de dizer, e fazendo foram aprendendo como tomar decisões coletivas, dividir tarefas e assumir maiores responsabilidades. Eles foram influenciados pela experiência dos estudantes chilenos através de cartilhas e do vídeo A revolução dos pinguins, o que permitiu pensar que fazer ocupações era possível, além de contar com o apoio de outros movimentos. Antes das ocupações eles realizaram manifestações e atos contra a reorganização escolar, ações que não tiveram repercussão até os adventos das ocupações.

Só foi com o movimento de ocupações das escolas que houve uma repercussão social, e ele parece que nasceu de uma relação casual (causa/efeito) diante do antagonismo com a proposta de reorganização escolar do governo. As ocupações só se tornaram realidade quando o governo anunciou as 94 escolas que seriam fechadas e quais ciclos de ensino seriam encerrados. Dessa ação governamental veio a reação dos estudantes que continha uma intencionalidade política de ocupar e resistir, o que permitiu perceber que o movimento nascente despontava sob uma finalidade: barrar a reorganização e pautar a participação estudantil na direção e nos rumos das escolas.

Nesse contexto, o que o movimento de ocupações quis dizer para a sociedade? Um dos primeiros dizeres foi que os estudantes querem participar das decisões que afetam suas vidas. Então, querer participar é querer se autodeterminar, aspecto primário em qualquer democracia direta como proposta política que advém da participação direta e se contrapõe a democracia representativa, aquela em que se elegem representantes do “povo”, e ao seu participacionismo. Como a maioria dos brasileiros sabe, vivemos em tempos de crise da democracia representativa, o que implica repensar os modos de fazer política no país. A crise da democracia representativa é a crise de um sistema político inoperante para as classes trabalhadoras e populares, modo de regulação política que envolve partidos políticos, instituições eleitorais e instâncias administrativas de um Estado de viés patrimonialista sob um regime de acumulação de capital autoritário e segregador, que funciona para as classes dominantes – industriais, banqueiros, latifundiários e imobiliários. Portanto, o que os estudantes estão nos ensinando é que a participação se constrói de baixo para cima e não de cima para baixo como tem sido feita na moribunda democracia representativa. Eles fizeram isso através de assembleias diárias em que tomavam as decisões conjuntas sobre os rumos das ocupações e de seu nascente movimento. Isso não quer dizer que fizeram isso sem conflito, até porque toda luta envolve um enfrentamento externo e outro interno ao próprio movimento.

Outro dizer dos estudantes foi inovador nessa jornada: as aulas públicas sobre sexualidade, sistema político, autogestão, direito à cidade, entre outros temas, desenvolvidos por professores parceiros da luta; atividades culturais – teatrais, musicais e artísticas que ocorreram nas escolas; e as oficinas de grafite, de camisetas, de desenho, entre outras; que refizeram o sentido da educação através da educação sob um novo sentido. Essa nova escola, portanto, nasce no seio da velha escola a partir da iniciativa dos estudantes, não de professores, nem de diretores tampouco do estado político. O que eles nos ensinaram é que é preciso ousar para tudo ter e de que o amanhã nasce do hoje. Por isso, essa nova educação implica partir dos reais anseios dos estudantes.

Ao ocupar escolas por um movimento que se generalizou para mais de 220 escolas, os estudantes ocuparam um espaço público que precisava ser apropriado por quem estuda lá, e toda apropriação envolve uma luta por autodeterminação, que se desdobrou em uma construção da autonomia através da pedagogia da luta e da educação transformadora. Como já disse o educador Paulo Freire, a educação é uma forma de intervenção no mundo. Então, ocupar e resistir na escola pública representou não apenas autodefender o direito a uma educação de qualidade, mas também de autodeterminá-la a partir das reais necessidades dos estudantes que insurgiram contra um processo antidemocrático que veio de cima para baixo.

Nessa luta, a cada ação um dizer, a cada dizer uma necessidade, a cada necessidade um ensinamento. Assim foi o movimento de ocupações estudantis que sacudiu o estado de São Paulo no final de 2015. Essas ocupações evidenciaram que há uma luta pela apropriação do espaço público que se contrapõe a lógica da propriedade privada, que mercantiliza e priva de acesso os estudantes periféricos e filhos de trabalhadores. Em síntese, a autodefesa da escola foi a defesa da educação pública em contraposição a sua terceirização e futura privatização. Portanto, os estudantes também disseram que a saída não está na mercantilização do ensino, mas sim no fato de que a escola que eles querem precisa garantir a participação direta, a autodeterminação e o envolvimento de crianças e adolescentes em seu projeto político-pedagógico.

Como os estudantes disseram isso? Realizaram e organizaram inúmeras assembleias para tomar as decisões sobre os rumos das ocupações; dividiram-se em comissões de “segurança” (ou autodefesa), cozinha, comunicação, limpeza, entre outras, para manter o espaço da escola organizado e limpo; organizaram aulas públicas com professores parceiros, atividades culturais com coletivos amigos e ensaiaram a construção de uma nova escola a partir do processo de autogestão (em algumas escolas) e de centralismo democrático (em outras escolas) vivenciando-os na luta contra a reorganização. Essas experiências de autogestão e centralismo democrático não são novas na história, até porque foram criadas pela classe trabalhadora em seus movimentos. Mas o que foi inovador foi haver ocorrido nas escolas públicas. Por isso, quem foram os protagonistas desse movimento? Estudantes filhos de trabalhadores moradores do centro e da periferia, considerados “uma geração perdida” e que disseram já basta aos desmandos na educação pública no estado de São Paulo, estado que está sendo governado há mais de vinte anos pelos tucanos, partido de frações da grande e da  pequena burguesia que têm uma visão empresarial e privatista do serviço público.

Os tucanos, ao dizerem que a escola estava fechada e que as aulas estavam paralisadas por causa das ocupações, quiseram apagar o movimento real que ocorreu ali: aulas, aprendizados, relações sociais e participação responsável dos estudantes com o espaço ocupado: nunca antes quiseram estar tanto na escola. Então, é possível afirmar que a escola esteve em pleno funcionamento, mas este foi autodeterminado por seus estudantes. Por isso, o que eles aprenderam com as ocupações em dois meses de luta foi um aprendizado para uma vida que nenhum professor ou livro didático faria em anos. É no processo de luta por outra sociedade que os trabalhadores e seus filhos constroem as organizações e instrumentos de luta, oscilando entre a capacidade de criar novas relações sociais igualitárias e reproduzir relações desiguais, hierárquicas e deformadas quando organizações ou aparelhos políticos substituem os trabalhadores na direção de suas lutas¹.  Em diversas escolas organizações “representativa” dos secundaristas²  apareceram para colocar suas bandeiras sem ter contribuído com a organização da luta (em algumas escolas os estudantes nunca viram essas organizações). Por essa ausência, elas foram rechaçadas por alguns estudantes, o que mostrou os sintomas da crise de representatividade em um movimento que buscou construir pela base e junto com os estudantes (e não para os estudantes) suas pautas de reivindicações.

No entanto, não se pode negar a contribuição de algumas organizações e instrumentos criados historicamente pelos trabalhadores e estudantes em uma luta que adquire caráter universal (a educação pública). Nesse contexto, a luta dos secundaristas contou com apoio também da Defensoria Pública do Estado e de sindicatos, movimentos sociais e das comunidades onde estavam, mas foram eles que construíram a “direção coletiva” em reuniões de comando das ocupações. Foi então um movimento que conseguiu ir além da reorganização escolar, porque passou a se construir como uma luta em defesa da educação pública sob outros pressupostos, já que eles tiveram a chance de pautar “que escola nós queremos” a partir das vivências que tiveram nas ocupações. Deixaram, portanto, um recado para toda a sociedade: as transformações e mudanças efetivas só podem ocorrer a partir da luta popular – só a luta muda a vida.

Foi com essa mensagem de luta direta organizada de baixo para cima que os estudantes fecharam o ano 2015 evidenciando que não basta tomar as ruas, mas que é preciso tomar os meios de produção (nesse caso, as escolas) sob os aspectos do fazer e da gestão no contexto da luta de classes e do poder popular, para se pautar outro sentido de reorganização do ensino e da educação pública na sociedade, ao permitir a socialização do saber e o saber da socialização. Por fim, a mensagem das ocupa-ações secundarista em SP não será esquecida, porque mostrou a necessidade e a possibilidade de se organizar a escola de maneira autogerida com participação direta de seus estudantes junto aos professores e funcionários, deixando evidente que uma outra educação é possível porque outra sociedade é possível: é preciso construí-la como projeto político, econômico e social. Axé e vida longa à luta estudantil secundarista!

Sandro Barbosa de Oliveira

Sandro Barbosa de Oliveira é professor, educador popular, bacharel em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). É também associado e cientista social da Usina Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado.

1  Maurício Tragtenberg, Reflexões sobre o socialismo, São Paulo, Unesp, 2008.

2  União Municipal-UMES, União Paulista-UPES, e União Brasileira dos Estudantes Secundarista-UBES

22 de Janeiro de 2016

Palavras chave: Escolas, ocupações, educação, reorganização, São paulo, Alckmin, Geraldo, repressão, polícia

Fonte: http://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=3173&tipo=acervo

CURSO PREPARATÓRIO PARA CONCURSOS PÚBLICOS


A Faculdade Paulista de Serviço Social possui um trabalho único na realização de cursos intensivos aos interessados em seguir uma carreira que demande concurso, geralmente em instituições públicas de grande porte.

Conquistar uma vaga em uma empresa pública é um dos desejos comuns entre os trabalhadores, pois estas são consideradas vagas de estabilidade, com boa remuneração e benefícios.

Com corpo docente de maioria composta por mestres e doutores, a FAPSS realiza intensivos para concursos obtendo grandes níveis de aprovação.

INTRODUÇÃO

O curso preparatório para concursos público do INSS visa fornecer conhecimentos que serão requisitados na prova, tendo módulos compostos por:

Língua Portuguesa;
Noções de Direito;
Direito Constitucional;
Técnicas de Aprimoramento de Estudo;
Legislação da Assistência Social;
Legislação Previdenciária;
Raciocínio Lógico.
A FAPSS - Faculdade Paulista de Serviço Social de São Paulo, oferta tal curso com o intuito de colaborar com o aprimoramento dos candidatos no tocante à qualificação profissional, observando a demanda do mercado mais exigente atualmente.

Informações, matrículas e local de realização ligue: (11) 3666-0246

Ou no link: http://fapss.br/capacitacao/preparatorio-para-concursos-publicos.php

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Fundo Brasil de Direitos Humanos está com inscrições abertas para novo edital

Já estão abertas as inscrições para o novo edital do Fundo Brasil de Direitos Humanos, com a proposta de disponibilizar recursos para apoio institucional e para atividades de organizações da sociedade civil e de defensores de direitos humanos, priorizando aqueles que disponham de poucos recursos e/ou que tenham dificuldades de acesso a outras fontes.

Em 2016, o Fundo irá doar até R$ 800 mil para apoio a projetos, com valor total de no mínimo R$ 20 mil e, no máximo, R$ 40 mil, para até um ano de duração.

Para participar, as organizações proponentes devem ter receita anual de, no máximo, R$ 700 mil, e desenvolver iniciativas com o objetivo de combater a violência institucional e a discriminação nas seguintes temáticas: direito a cidades justas e sustentáveis; direito à livre expressão, organização e manifestação; direito à livre orientação sexual e identidade de gênero; direito à terra e ao território; direito das mulheres; direito de crianças e adolescentes; direitos socioambientais no âmbito dos megaprojetos; enfrentamento ao racismo; enfrentamento ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo; e garantia do Estado de Direito e justiça criminal.

Todos os projetos serão analisados por um Comitê de Seleção, formado por especialistas, que irá indicar quais iniciativas serão apoiadas, ficando a decisão final a cargo do Conselho Curador do Fundo Brasil.

Entre os critérios de seleção, estão: adequação ao foco do edital;  impacto social pretendido; potencial efeito multiplicador; criatividade, caráter inovador e consistência da proposta; conexão com redes, fóruns, articulações locais, regionais ou nacionais; existência de vínculos estreitos com as comunidades; adequação da proposta às necessidades reais da comunidade ou do público diretamente beneficiado; idoneidade e legitimidade do grupo, organização ou indivíduo que pretende executar as atividades; capacidade do proponente para o desenvolvimento do projeto; e diversidade regional.

Os interessados em participar deverão responder a umformulário e encaminhá-lo ao Fundo Brasil de Direitos Humanos, somente por correio, até o dia 26 de fevereiro. Outras dúvidas podem ser enviadas para o e-mail: edital@fundodireitoshumanos.org.b.

Texto retirado do site: https://observatoriosc.wordpress.com/2016/01/18/fundo-brasil-de-direitos-humanos-esta-com-inscricoes-abertas-para-novo-edital/

Fonte: Gife

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Primeiro Boletim dos Trabalhadores do SUAS Santo André

Primeiro Boletim da Comissão Setorial de Trabalhadores do SUAS Santo Andr
é. Um balanço de 2015!

Veja publicação no link: https://drive.google.com/file/d/0B3bEuXYCJPTeV1lEQXRleHQ3SFE/view?usp=docslist_api

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Financiamento das Políticas Públicas e Direitos Sociais

Convido a todos a palestra que estarei proferindo a convite do CRESS no dia 26/11 as 19:00  na sede da OAB em Sto André, conforme o cartaz anexo!

sábado, 19 de setembro de 2015

Desafios para implementação da Base Nacional Comum Curricular

Por: Daniel Cara
Em 16/09/2015 - UOL Educação

O Ministério da Educação (MEC) lança hoje sua proposta para a Base Nacional Comum Curricular. O instrumento é demandado pelo artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 e por estratégias do Plano Nacional de Educação (PNE), primordialmente relacionadas ao ensino fundamental, ensino médio e à formação dos profissionais da educação.

Ainda há questionamentos acerca da necessidade ou não de uma Base Nacional Comum Curricular. Partindo do pressuposto básico e republicano de que as leis devem ser cumpridas, construir e implementar a Base é uma obrigação dos governantes. Aliás, desde 1996.

Diante disso, o problema central recai sobre a qualidade da Base. Para dar certo, qualquer instrumento curricular deve ser validado por professores, formadores de professores e pelo conjunto majoritário da comunidade educacional. Caso contrário, tende a virar letra morta ou mecanismo pouco relevante, ficando restrito a orientar a produção de livros didáticos e materiais pedagógicos. Isso não é pouco, porém é insuficiente – haja vista os casos dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do governo FHC e as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do governo Lula.

Para lançar sua proposta, a Secretaria de Educação Básica do MEC convocou e coordenou diversos grupos de trabalho, envolvendo Estados e Municípios, professores e pesquisadores. É inegável o esforço. Contudo, há críticas sobre a representatividade do coletivo e a abrangência da proposta. Em que pese a iniciativa, atores relevantes não foram envolvidos, especialmente influentes na formação de professores.

Foi um erro. E, caso não seja corrigido, trará alto custo para a implementação do instrumento. Ainda há tempo de aprimorar o processo, inclusive envolvendo de forma mais concreta outros pesquisadores, professores, sindicatos, conselheiros e gestores públicos. Será necessária, para isso, maior capacidade de negociação por parte do MEC, disposição para o estabelecimento de consensos básicos (mas difíceis) e o reconhecimento pragmático sobre a forma como se estrutura a política de educação no Brasil: qualquer iniciativa exige legitimação ampla. Caso contrário, pode até gerar alvoroço na opinião pública, mas não chega à ponta (escolas ou redes públicas) ou se mantém relevante para o cotidiano escolar, tendo morte prematura. Um bom exemplo disso foi o fim silencioso do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) do então Ministro, Fernando Haddad.

O maior erro dos governantes em matéria educativa é desconsiderar um princípio simples e prático: não há universalização de uma política educacional, especialmente no âmbito curricular, sem a legitimação dela pelos professores que atuam em sala de aula. E isso não se faz por medidas tecnocráticas, por arranjos sociais, econômicos e políticos ou pelo apoio da imprensa – até porque ele é instável. O único caminho efetivo em educação é envolver representações da comunidade educacional na formulação da política. É difícil, porém é o único percurso possível – sendo, portanto, o mais pragmático.

Segundo o PNE, a Base Nacional Comum Curricular tem até junho de 2016 para ser definida. Ainda há tempo de corrigir rumos. E é possível e desejável aproveitar o trabalho feito até aqui e aprimorá-lo, tornando-o capaz de ser efetivo.

Fonte:http://danielcara.blogosfera.uol.com.br/2015/09/16/desafios-para-implementacao-da-base-nacional-comum-curricular/

Fonte da Imagem: http://educacaoeuapoio.com.br/

domingo, 9 de agosto de 2015

UM POUCO DE MARX NÃO FAZ MAL A NINGUÉM

Publicado por Matheus Paulo Melgado

Em um mundo com o capitalismo cada vez mais voraz, reposicionar a sua obra no senso comum, que ao longo dos anos foi deturpada desonestamente, ignorando os preconceitos ideológicos um tanto quanto imaturos, se faz urgente para entender algumas questões contemporâneas. Mais que uma provocação, este texto é uma tentativa de expor alguns conceitos que se fazem presentes até hoje. E mostrar que, saber um pouco de Marx, não faz mal a ninguém.

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na historia do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Esta frase, Karl Marx (1818-1883) escreveu no início do livro “18 de Brumário de Luis Bonaparte”, no século XIX. E é mais uma, de tantas outras frases famosas de um dos grandes intelectuais da humanidade, que se mostra, no século XXI, fundamental para o entendimento da nossa sociedade, com uma herança intelectual que abrange diversas áreas como Economia, Comunicação Social, Ciências Sociais, Direito, Filosofia, História, Geografia, Pedagogia e Serviço Social.

De acordo com a BBC, em 2005, Karl Marx foi eleito o filósofo mais importante de todos os tempos. Alemão, nascido em 1818, usou ironicamente do jornalismo, que atualmente se apresenta como um serviço a população e um aparelho da classe dominante, para escrever os primeiros escritos sobre suas ideias. Em Berlim, participou do Clube dos Doutores, liderado pelo filósofo alemão Bruno Bauer. Mais tarde, ingressou para o movimento Jovens Hegelianos, inspirado no filósofo alemão Friedrich Hegel, cuja filosofia idealista foi criticada por Marx ao formular o materialismo histórico dialético. Escreveu diversas obras que são conhecidas mundialmente como o Manifesto Comunista, O Capital, Ideologia Alemã e Teses sobre Feuerbach. Atualmente, reconhecer a importância da obra desse pensador, pode parecer um tanto quanto ridículo ao senso comum, devido às experiências socialistas do século XX e a tal da ideologia da classe dominante. Frases como “Vai pra Cuba!”, “Não quero perder o meu iphone” ou “ É fácil falar de uma cobertura em Ipanema”, se tornaram populares no imaginário das pessoas e um discurso pueril que mostra o desconhecimento sobre Marx. No entanto, ao contrário, nas Universidades do mundo a fora, seu pensamento é lido, relido e com desdobramentos interessantes.

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Cena do filme Tempos Modernos de 1936
É indiscutível que suas previsões sobre o que aconteceria com o modo de produção capitalista não tenham dado certo, o processo pelo qual ele chegou a essa conclusão, de certa forma, se encaixa aos dias atuais. Entender alguns conceitos como alienação, luta de classes como motor da história e ideologia são fundamentais para entender um pouco da sociedade atual. O filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin é o mais emblemático e didático quando alguém quer falar de alienação no trabalho. Marx denunciou que o processo ocorre quando o trabalhador não se reconhece na produção do seu trabalho. Afinal, ele fora extraído a força dos campos às fábricas. A alienação nos dias atuais, se estende para diversas formas de alienação como intelectual e cultural, por meio da indústria cultural ( denunciada, na década de 30, pelo marxista Theodor W. Adorno).

Embora as classes socioeconômicas tenham se pulverizado, não é exagero, no século XXI, falar em luta de classes e as recentes tentativas políticas de diminuir o abismo que a constitui. Com um olhar um pouco mais aguçado, percebe-se que ela se traduz em um olhar preconceituoso, em atitudes como levantar o vidro do carro ou o incômodo de estudar na mesma universidade que a filha da empregada. A consequência dessa luta, hoje muito mais simbólica, se faz presente, sobretudo, quando os interesses da classe dominante, se traduzem de tal modo, que passam a ser também retórica da classe dominada. Marx denominou tal movimento de ideologia, o que para ele é mentira, falsa consciência, pois são ideias que servem para a manutenção do status quo. Alguns argumentos sobre maioridade penal, legalização das drogas, aborto e outros temas polêmicos são incorporados como verdades absolutas e são, em suma, o discurso pronto da classe dominante. O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, é um bom exemplo de ideologia marxista. Um negro pobre que conseguiu alcançar o mais alto cargo da magistratura brasileira sem obter nenhum benefício do Estado no que concerne as políticas públicas como cotas nas universidades ou o ProUni. Isto se torna regra e todo negro e pobre, aos olhos do discurso ideológico, deve ser igual ao Joaquim Barbosa, negando assim, qualquer política pública como as cotas para negros nas Universidade públicas brasileiras.

Em sua extensa análise sobre o modo de produção capitalista, a riqueza do comunismo não está em ninguém ter iphone ou outros símbolos capitalistas, e sim em todos terem. Assim, o que se prega não é distribuição da pobreza e sim distribuição da riqueza. Ter em mente a importância de Karl Marx não o faz marxista. Com um olhar um pouco mais humano e aguçado, sua teoria nos faz entender um pouco o porque as coisas se tornaram do jeito que são. Se despir dos preconceitos ideológicos se faz necessário em um mundo cada vez mais complexo, para não somente viver, mas interver nele.

http://obviousmag.org/anseios/2015/um-pouco-de-marx-nao-faz-mal-a-ninguem.html#ixzz3iKLFLDXF

terça-feira, 7 de julho de 2015

Brasil: onde racistas só se surpreendem com o racismo dos outros

"Não dá pra ter indignação seletiva, revoltar-se com o que aconteceu com a jornalista, mas calar-se quando é com o porteiro, com o menino da periferia"

Por Djamila Ribeiro — publicado na Carta Capital em 06/07/2015 19h12

Como foi bastante divulgado durante a semana, Maria Júlia Coutinho, carinhosamente chamada de Maju, a “garota do tempo” do Jornal Nacional, foi alvo de comentários racistas nas redes sociais. Rapidamente criaram-se campanhas de apoio a ela, pessoas manifestaram-se contra o episódio e a hashtag Somos todas Maju liderou o trend topics do twitter.

Obviamente que me solidarizo com Maju, como mulher negra que se coloca, sei o que é receber ofensas nas redes sociais de pessoas sem noção. Porém, o que me intriga é a falta de criticidade de muitas pessoas que se solidarizaram.

Quando eu vi algumas pessoas da minha rede de amigos ficarem surpresos com as ofensas, minha vontade foi dizer: queridinhas, é a mesma coisa que vocês faziam comigo na escola, lembram? Lembram meninos, que vocês corriam de mim na época da festa junina dizendo categoricamente: “não vou dançar com a neguinha?” Quase escrevi para um colega que estava revoltado se ele lembrava ter ficado surpreso ao saber que eu fazia mestrado em filosofia política e falava outros idiomas quando me conheceu e ainda disse surpreso “nossa, você é inteligente mesmo, se fosse loira seria um fenômeno”.

Aos que dizem “em pleno século XXI e isso ainda acontece” falta conhecimento da história do Brasil, de que esse país foi fundado no racismo, é estrutural. Eu fico surpresa com a surpresa dessas pessoas. Como eu sempre digo, não precisa ler Franz Fanon, basta ligar a TV. Num país com 52% de população negra, por que essas mesmas pessoas não se surpreendem com a ausência de negros na TV? Por que não criam uma campanha chamada Por uma TV menos eurocêntrica, por exemplo?

Quem trabalha com educação e ficou indignado está trabalhando com a lei 10639? Trata-se de uma lei de 2003 que alterou a lei de diretrizes e bases da educação e obriga a inclusão do ensino da história de África e afrobrasileiras na escola.

Interrompem a aula quando um aluno faz ofensas racistas a outro ou diz que isso é brincadeira e não faz nada?  Quem é empregador, contrata profissionais negras? É urgente que pessoas brancas discutam racismo pelo viés da branquitude, que se questionem. Que reflitam e perguntem a si mesmas: quantas vezes eu contribui com a baixa estima da minha amiga negra ao fazer piadas sobre o cabelo dela? Quantas vezes eu tentei destruir o sonho de uma pessoa negra por achar que a filha da minha empregada negra não podia fazer faculdade com meu filho e sim servir minhas próximas gerações? Quantas vezes eu naturalizei que mulheres negras deviam me servir em vez de entender que elas são empurradas a esses empregos por conta do racismo e machismo estrutural?

Os apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos posam com cartazes com a frase #SomosTodosMaju
Sem esses questionamentos não serve de nada mostrar indignação. De campanhas que não mexem nas estruturas e não se questiona privilégios já estamos fartas. Não adianta se revoltar com as ofensas que Maju sofreu julgando que essas são coisas isoladas, que só acontecem às vezes quando o racismo é uma realidade para a qual muitos fecham os olhos.

Não adianta se incomodar com essas ofensas e ser contra as cotas, ser fã do descerebrado do Gentilli, chamar militantes de vitimistas quando apontam racismo. Ou ainda ser a favor da redução da maioridade penal quando se sabe que essa só vai encarcerar jovens negros porque julga-se que jovens brancos ricos ou de classe média são aqueles que de boa família que cometeram um erro.

Não dá pra ter indignação seletiva, revoltar-se com o que aconteceu com a jornalista, mas calar-se quando é com o porteiro, com o menino da periferia.

No Brasil até quem se coloca contra certas atitudes racistas não sabe ou finge não saber como o racismo age. Racismo é um sistema de opressão que nega direitos, vai além de ofensas. Como diz Kabengele Munanga: “o racismo é um crime perfeito no Brasil, porque quem o comete acha que a culpa está na própria vítima, além do mais destrói a consciência dos cidadãos brasileiros sobre a questão racial. Nesse sentido é um crime perfeito”.

Toda solidariedade a Maju e toda indignação perante a hipocrisia. Sim, o Brasil é racista e o ódio racial contra a população negra existe desde que o primeiro navio negreiro aqui chegou.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/somos-todos-maju-8558.html

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Culpa é de QUEM... ?

No ano passado; vejam bem, não faz tanto tempo assim... Houve eleições para Presidente da República, ganhou a Candidata do PT em detrimento do Candidato do PSDB. Até aqui, dentro das regras do jogo... ou seja pelo voto direto do eleitor. Pode - se questionar, reclamar o que for, o fato é que a Sra Dilma Rousseff foi reeleita democraticamente. Desde de então, a oposição a sua candidatura, e aqui não me refiro apenas ao partido do Sr Aécio Neves,  mais TODAS as forças sociais e econômicas que eram contrárias à esta reeleição. Podemos afirmar sem sombra de dúvida,  que entre eles estão a Folha de São Paulo  (que deixa clara sua posição em seus editoriais não assinados), assim como a Rede Globo, em suas mais diferentes versões. Se tratasse apenas de uma oposição que atuasse no campo das idéias, do debate franco e salutar... Não teríamos aqui quaisquer motivos para levantar suspeitas ou apontar culpados. No entanto, desde mesmo antes das eleições estes grupos vem fazendo ataques a dignidade pessoal e moral da Presidente da República,  e de seu antessessor. Ninguém tem que concordar com qualquer posicionamento político,  e todo posicionamento político deve estar sujeito a críticas. Mas quando

Começou a circular nesta quarta-feira (1) na internet imagens de carros com adesivos colados na entrada do tanque de gasolina, onde a presidente aparece de pernas abertas, com a entrada do tanque de gasolina ficando entre suas pernas - na prática: a ideia do adesivo é mostrar Dilma Rousseff sendo penetrada sexualmente pela mangueira de combustível (não, você não leu errado, é isso mesmo).

O tal "protesto" teria como motivo o preço da gasolina nos postos, que vem aumentando gradualmente ao longo do ano e começou a pegar pesado no bolso do consumidor. A revolta com o aumento dos preços é algo extremamente justificável, mas a questão é: o quanto isso é "legal" - tanto no sentido criminal quanto na qualidade do ato.

Vamos colocar as coisas em perspectiva é avaliar bem o significado por trás desse ato... ele (o protesto), e apenas um desdobramento "fora de controle" da violência motivada pela mídia de oposição contra o Governo, e não estou aqui para fazer defesa do governo, mais para fazer defesa sim da "VERDADEIRA MORALIDADE ", aquela se preocupa em ensinar seus filhos e não xingar,  não ofender,  a ser tolerante com outra opiniões, a aceitar as diferenças. VALORES MORAIS E ÉTICOS, que os senhores Parlamentares da Câmara de Deputados não tem qdo aumentam seus salários,  qdo roubam (várias investigações em andamento) , que retiram direitos civis.

Os gritos raivosos , e ofensas de baixo calão feitos contra as pessoas que defendiam a "Não Redução da Maioridade Penal ", demostrava já o nível baixo de posicionamento político e sem argumento. Derrepente todo mundo que era contra a "Redução" foi chamado de marginal, vagabundo e petista... e só pra ilustrar, inclusive o Juiz Joaquim Barbosa, que foi o "Grande Heroi" , eleito pela Oposição da Prisão dos ditos "Mensaleiros".

Não creio que com este (protesto) usando a imagem da Presidente, tenhamos chagado ao fundo do poço.  Tenho certeza que baixeza moral dessas pessoas pode descer ainda mais... e o pior de tudo tudo isso em nome de "DEUS, DA FAMÍLIA E DOS BONS COSTUMES"!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Querido pastor

Publicado na Folha de São Paulo em 22/06/2015

Por GREGORIO DUVIVIER

Aqui quem fala é Jesus. Não costumo falar assim, diretamente -mas é que você não tem entendido minhas indiretas. Imagino que já tenha ouvido falar em mim -já que se intitula cristão. Durante um tempo achei que falasse de outro Jesus -talvez do DJ que namorava a Madonna- ou de outro Cristo -aquele que embrulha prédios pra presente- já que nunca recebi um centavo do dinheiro que você coleta em meu nome (nem quero receber, muito obrigado). Às vezes parece que você não me conhece.

Caso queira me conhecer mais, saiu uma biografia bem bacana a meu respeito. Chama-se Bíblia. Já está à venda nas melhores casas do ramo. Sei que você não gosta muito de ler, então pode pular todo o Velho Testamento. Só apareço na segunda temporada.

Se você ler direitinho vai perceber, pastor-deputado, que eu sou de esquerda. Tem uma hora do livro em que isso fica bastante claro (atenção: SPOILER), quando um jovem rico quer ser meu amigo. Digo que, para se juntar a mim, ele tem que doar tudo para os pobres. "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus".

Analisando a sua conta bancária, percebo que o senhor talvez não esteja familiarizado com um camelo ou com o buraco de uma agulha. Vou esclarecer a metáfora. Um camelo é 3.000 vezes maior do que o buraco de uma agulha. Sou mais socialista que Marx, Engels e Bakunin -esse bando de esquerda-caviar. Sou da esquerda-roots, esquerda-pé-no-chão, esquerda-mujica. Distribuo pão e multiplico peixe -só depois é que ensino a pescar.
Se não quiser ler o livro, não tem problema. Basta olhar as imagens. Passei a vida descalço, pastor. Nunca fiz a barba. Eu abraçava leproso. E na época não existia álcool gel.

Fui crucificado com ladrões e disse, com todas as letras (Mateus, Lucas, todos estão de prova), que elestambém iriam para o paraíso. Você acha mesmo que eu seria a favor da redução da maioridade penal?

Soube que vocês estão me esperando voltar à terra. Más notícias, pastor. Já voltei algumas vezes. Vocês é que não perceberam. Na Idade Média, voltei prostituta e cristãos me queimaram. Depois voltei negro e fui escravizado -os mesmos cristãos afirmavam que eu não tinha alma. Recentemente voltei transexual e morri espancado. Peço, por favor, que preste mais atenção à sua volta.
Uma dica: olha para baixo. Agora mesmo, devo estar apanhando -de gente que segue o senhor.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Branca ou negra? Homem ou mulher?

André Petry

Rachel Dolezal é uma anônima que ficou famosa como Michael Jackson ao contrário: é branca e virou negra. Ou melhor: fingiu ser negra. Rachel estudou na Universidade Howard, tradicional reduto de universitários negros em Washington DC. Casou-se com um negro, com quem teve um filho, hoje com 13 anos. Tornou-se professora de estudos africanos na Universidade Eastern Washington, no estado de Washington. Desde o ano passado, presidia, na cidade de Spokane, a seção local da NAACP, sigla em inglês para a principal entidade de defesa dos direitos civis dos negros. Sua gestão organizou as finanças, ampliou a militância e trouxe visibilidade à NAACP. Em janeiro passado, Rachel até postou uma foto em sua página no Facebook em que aparecia ao lado de um homem alto, negro, que identificou como seu pai. Com seu cabelo encarapinhado e pele bronzeada, Rachel, 37 anos, era um exemplo de militante negra. Só que era tudo mentira.

Na semana passada, os pais de Rachel, que moram no estado de Montana, deram entrevista a uma emissora de televisão e disseram que a filha é branca, tal como eles próprios: “Ela é obviamente nossa filha e nós somos obviamente caucasianos.” Ruthanne e Lawrence contaram que, quando Rachel era adolescente, adotaram quatro crianças negras. Rachel afeiçoou-se aos irmãos e, mais tarde, imergiu na cultura negra. De uma década para cá, mais ou menos, os pais começaram a receber avisos de amigos informando que a filha andava se apresentando como negra. Como prova do que afirmavam, os pais de Rachel forneceram uma foto de adolescência. Na imagem, Rachel está sorrindo, cabelos loiros e lisos, olhos claros, entre o azul e o verde, e o rosto salpicado de sardas. Segundo os pais, a família tem ascendentes alemães, suíços e checos, com uma pitada de indígena. Em função de um desentendimento familiar, Rachel não fala com os pais há cerca de dois anos.

A falsificação da branca que virou negra conquistou a atenção de Spokane, cidade esmagadoramente branca, e logo ganhou as páginas dos principais jornais americanos e sites americanos e do mundo. Na segunda-feira, Rachel renunciou à presidência da NAACP. No dia seguinte, Rachel deu várias entrevistas, mas não esclareceu os motivos que a levaram a mentir sobre si mesma. Para comandar a NAACP, ser negro não é um requisito. Em outros tempos, nos Estados Unidos, era comum que negros se identificassem como brancos, quando a cor da pele não os contradizia abertamente. No entanto, o inverso sempre foi raro em função da discriminação e do preconceito contra os negros. Hoje em dia, porém, o caso de Rachel parece mostrar que, pelo menos em certas circunstâncias, é melhor parecer negro do que branco.

Involuntariamente, Rachel provocou um debate relevante: afinal de contas, qual o significado do que se convencionou chamar de “identidade racial”? Do ponto de vista científico, não existe “raça branca” ou “raça negra”. Existe “raça humana”, nada além disso. Biologicamente, pertencem à mesma raça os indivíduos que podem cruzar entre si e produzir uma prole fértil. Com o avanço científico, descobriu-se ainda mais: um alemão de Berlim pode ser geneticamente mais parecido com um negro de Luanda do que com outro alemão de Berlim.

Se não existe raça branca ou negra, qual o critério que se deve aplicar para considerar que alguém é negro ou branco? A cor da pele? A cor de seus antepassados? A presença de sangue negro ou branco nas veias? O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, que é branco, é casado com Chirlane McCray, que é negra. Os dois filhos do casal, Chiara e Dante, são considerados negros. Por quê? Neguinho da Beija Flor tem 67% de sangue europeu, e um sujeito loiro pode ter mais sangue negro nas veias do que Neguinho da Beija-Flor. A cor da pele pode parecer um critério óbvio para a “identificação racial”, mas há uma enorme variação cromática entre o branco extremamente alvo e o preto profundamente escuro. Sendo assim, qual o tom que define a passagem de uma cor para outra? Depois da divertida polêmica na internet sobre a cor do vestido — era azul e preto, ou branco e dourado? —, sabe-se que não vemos as cores exatamente iguais. Alguém pode ser negro para uns e branco para outros? Em 2007, os gêmeos univitelinos Alan e Alex Teixeira da Cunha inscreveram-se para as vagas das cotas raciais na Universidade de Brasília e, embora idênticos, Alan foi classificado como negro e Alex como branco.

Num artigo publicado no jornal inglês The Guardian, o colunista Steven Thrasher, considerado negro, escreveu: “A história de Rachel é fascinante para mim e para o resto do mundo porque expõe de modo inquietante que nossa raça é performance – que, apesar das enormes diferenças sobre como nossas raças são percebidas e privilegiadas (ou não), todas se baseiam num mito segundo o qual as distinções são intrínsecas e intrinsicamente perceptíveis”. E completou: “A ideia de que a raça é imutável é uma construção histórica e social.” Na sua conta do Twitter, o teólogo americano Broderick Greer, também considerado negro, escreveu que o caso de Rachel mostra “a estupidez da construção de ‘raça’”.

Como construção social e política, os rótulos raciais são arbitrários, imperfeitos. Variam conforme o contexto, a cultura, o zeitgeist. Sendo um conceito impreciso, como é possível catalogar uma população segundo critérios raciais? E, pior ainda, como é possível criar políticas públicas com base em critérios raciais, como as cotas raciais nas universidades brasileiras e no serviço público? A identificação racial é uma categoria que remete às ditaduras raciais, como a Alemanha nazista e a África do Sul do apartheid. Repudiar a classificação racial, além de combinar com uma longa tradição brasileira, é um ato de libertação – para negros e brancos. Obviamente, isso não significa, nem requer, desconhecer as condições desiguais em que vivem brancos e negros, nos Estados Unidos ou no Brasil.

Tudo considerado, por que Rachel Dolezal não podia apresentar-se como negra? No seu caso, claro, havia a mentira sobre a identidade de seu pai, havia uma falsificação. Como dizia a petição que pediu sua renúncia ao cargo de presidente da NAACP: “Não é uma questão de raça, é uma questão de integridade”. Mesmo assim, surgiu um debate paralelo que voltou a dividir conservadores e progressistas nos Estados Unidos. Se Rachel Dolezal não pode apresentar-se como negra, por que Caitlyn Jenner pode apresentar-se como mulher? Timothy Stanley, considerado branco, colunista do jornal inglês The Telegraph, perguntou: “Qual é a diferença material entre Rachel Dolezal e Caitlyn Jenner?” Stanley referia-se a Bruce Jenner que foi campeão olímpico nos anos 70 e, mais recentemente, participava do reality show das Kardashians. Bruce virou Caitlyn depois de fazer tratamento hormonal e assumir a identidade feminina. Saiu na capa de uma edição recente da revista Vanity Fair. Rod Dreher, que é considerado branco, editor da revista bimensal The American Conservative, ponderou:  “Se Rachel Dolezal dissesse que é homem, todos nós teríamos que concordar, sob pena de sermos denunciados publicamente, mas se Rachel Dolezal diz que é negra, é justo questioná-la.” Na aparência, as duas questões, a racial e a de gênero, pertencem à mesma esfera da liberdade individual. Mas há, pelo menos, uma diferença gritante. Como realidade biológica, gênero existe. Raça, não. Em artigo no The Guardian, Meredith Talusan, que se identifica como transgênero, definiu a diferença entre raça e sexo ao seu modo: “Médicos não anunciam a raça ou a cor quando nascemos, mas anunciam o gênero. Desde os primórdios da história, existem pessoas que nascem com um gênero e se identificam com outro. Raça, ao contrário, é uma invenção da Europa medieval.”

fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/branca-ou-negra-homem-ou-mulher/

terça-feira, 16 de junho de 2015